PF abre inquérito para investigar offshore de Cerveró

Empresa montada no Uruguai é proprietária do apartamento de 7,5 milhões de reais onde o ex-diretor morava no Rio de Janeiro

Thiago Prado, do Rio de Janeiro

Nestor Cerveró na chegada ao Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba (PR). A Polícia Federal informou que o ex-diretor da Petrobras foi preso preventivamente por ter feito movimentações financeiras suspeitas após ser denunciado pelo Ministério Público Federal

Nestor Cerveró na chegada ao Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba (PR). A Polícia Federal informou que o ex-diretor da Petrobras foi preso preventivamente por ter feito movimentações financeiras suspeitas após ser denunciado pelo Ministério Público Federal (Geraldo Bubniak/AGB/Folhapress)

A Polícia Federal abriu inquérito para investigar a Jolmey Sociedad Anonima, offshore montada no Uruguai a partir da articulação do ex-diretor Internacional da Petrobras Nestor Cerveró. Nesta semana, VEJA revelou e-mails que mostram como o executivo participou da criação da empresa que comprou o seu apartamento na Zona Sul do Rio de Janeiro. O Uruguai é citado em uma das delações premiadas da operação Lava Jato como o destino do pagamento de propinas de negócios feitos exatamente na diretoria comandada por Cerveró. A pedido de Brasília, a PF do Rio de Janeiro já começou a ouvir os envolvidos na abertura da Jolmey. Em setembro do ano passado, VEJA revelou que o dúplex de 7,5 milhões de reais onde Cerveró morava em Ipanema pertencia à empresa. O enredo contemplava várias operações nebulosas. A Jolmey foi criada em 2008 por um fundo de investimentos e passou a ser representada no Brasil pelo advogado Marcelo Mello, seu conhecido de longa data. Em agosto daquele ano, a empresa comprou o apartamento e, três meses depois, um contrato de locação foi firmado com Patrícia, mulher de Cerveró. No ano passado, assim que começaram a estourar os escândalos na estatal, um laranja foi nomeado sócio da Jolmey e a família deixou o duplex.

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Um conjunto de e-mails obtido por VEJA revela que Cerveró mentiu ao dizer que nada tinha a ver com a offshore uruguaia. Ele próprio dava as cartas na Jolmey. Em 18 de agosto, os representantes do Estudio Algorta, o escritório de advocacia uruguaio que articulou a criação da offshore, receberam uma mensagem enviada por Cerveró informando quem seria o seu representante no Brasil. Por que razão Cerveró mandaria essa mensagem se não fosse o dono da Jolmey? Três meses depois a minuta de compra e venda do imóvel passou pelo fax da BR Distribuidora, onde estava empregado na época. Ou seja, Cerveró monitorou de perto a compra do apartamento em que diz ter morado de aluguel entre 2009 e 2014. Trocava e-mails com a tranquilidade de quem desfrutaria uma impunidade eterna.

Há mensagens que escancaram ainda mais a sua relação com a Jolmey. Uma delas, escrita em 2010 por Bruno Fonseca, da equipe do advogado Marcelo Mello, pede o agendamento de uma reunião com Cerveró para que “a melhor estratégia seja tomada para mitigar o risco de exposição fiscal do cliente”. Na ocasião, a Jolmey estava com a declaração do imposto de renda pendente e poderia acabar caindo na malha fina do Leão. No e-mail, o ex-diretor é citado sem subterfúgios por Fonseca como o “dono da Jolmey”.

Em 2012, outra correspondência mostra que Cerveró chegou a ser consultado sobre a abertura de uma conta da Jolmey no Santander. Mensagens sobre o dia a dia da offshore eram trocadas entre advogados e a equipe do Estudio Algorta quase sempre tendo Cerveró copiado. VEJA apurou ainda que, depois da compra do apartamento, a Jolmey pagou cerca de 750 000 reais em uma reforma no imóvel de Cerveró. Os recursos vieram de uma conta da offshore no Unibanco que chegou a ter saldo de 2 milhões de reais em dezembro de 2008. Em dezembro passado, VEJA esteve com Cerveró no escritório do seu advogado criminalista, Edson Ribeiro. O ex-diretor reconheceu as mensagens, mas negou qualquer relação com a offshore.

Outro elo com o Uruguai está sendo investigado pela PF. Na delação premiada do executivo Julio Camargo, da Toyo Setal, é descrito com detalhes o pagamento de propinas na contratação de duas sondas da Samsung. Os sul-coreanos, segundo Camargo, estavam pagando “comissões” cobradas por Cerveró. Camargo disse à Justiça que repassou o dinheiro a Fernando Soares, o Baiano, apontado como operador do esquema em favor do PMDB. O suborno relativo à sonda, de acordo com Camargo, foi de 15 milhões de dólares, pagos no banco Winterbotham, no Uruguai. A polícia investiga se os recursos foram divididos com Cerveró.

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