O significado do 15 de Março de 2015

Ou, por que a sabedoria está em confiar em quem busca a verdade, e sempre desconfiar de quem quer ter a hegemonia da verdade

Manifestantes pedem a saída do PT do governo, em São Paulo - 15/03/2015

Manifestantes pedem a saída do PT do governo,
 em São Paulo - 15/03/2015(Nelson Almeida/AFP)

O domingo passado será lembrado em nossa história como um marco delimitador do avanço do projeto hegemônico do PT no Brasil. O modelo de dominação política que o PT detalha nos seus documentos, resoluções e cartilhas exige duas condições básicas para funcionar. A primeira é a censura à imprensa, com evolução para a completa supressão da liberdade de expressão. A segunda é um corolário da primeira e responde pelo nome de “hegemonia”. A obsessão com a conquista da “hegemonia” é forte no PT, mas seus doutrinadores sempre se esquivam de explicar o que isso significa.

É difícil encontrar uma manifestação oficial do PT em que a expressão “hegemonia” não apareça. Um entre centenas de exemplos está na Resolução Política divulgada pelo PT logo depois da contagem dos votos das eleições passadas, que deram a vitória nas urnas a Dilma Rousseff. Diz o documento: “É urgente construir hegemonia na sociedade, promover reformas estruturais, com destaque para a reforma política e a democratização da mídia”.

Do Dicionário Houaiss:

Hegemonia (substantivo feminino)

1 – Supremacia, influência preponderante exercida por cidade, povo, país etc. sobre outros

2 – Derivação: por extensão de sentido, autoridade soberana; liderança, predominância ou superioridade

Com base apenas no verbete de dicionário, já seria altamente suspeito que um partido político coloque para si como objetivo “urgente” conquistar a “autoridade soberana” e a “predominância” sobre os outros. Qualquer partido que tenha a hegemonia como objetivo não pode, por definição, ser um partido democrático.

O PT, portanto, precisa entender que, de duas, uma: ou renuncia à hegemonia ou desespere de ser visto como um partido apto para o jogo democrático, cuja premissa é a de que nenhum dos participantes deve objetivar a “autoridade soberana” sobre os outros.

Os doutrinadores petistas escapam como bagres ensaboados quando se pede que expliquem ao distinto público, afinal, que raios entendem por hegemonia. Entre quatro paredes eles debatem avidamente esse ponto. Melhor poupar o leitor de devaneios sobre as origens e variações filosóficas da hegemonia política e saltar para o que realmente interessa:

1) Quem, quando e onde obteve essa hegemonia.

2) O que foi preciso para alcançá-la.

Vamos lá.

1) A hegemonia pela qual o PT é obcecado só existiu e existe em regimes totalitários em que a democracia foi erradicada: na Rússia soviética sob Stálin, na Alemanha nazista sob Hitler e, perifericamente, em países irrelevantes como Cuba e Coreia do Norte.

2) Para obter a hegemonia naqueles países foi necessário:

a) Formar um regime de partido único colocando na ilegalidade todos os demais

b) Prender, fuzilar ou exilar depois de julgamento sumário as pessoas que pensassem de forma diferente

c) Censurar todas as formas de expressão cultural e eliminar a imprensa livre

Vamos reler o trecho da recente resolução do PT em sua forma dissimulada: “É urgente construir hegemonia na sociedade, promover reformas estruturais, com destaque para a reforma política e a democratização da mídia”.

E, agora, substituindo os termos abstratos pelo que eles significam na prática: “É urgente formar um partido único colocando na ilegalidade todos os demais, promover a retirada de circulação de todas as pessoas que pensem de forma diferente, com ênfase na censura à imprensa e supressão de todas as formas de expressão em desacordo com o partido”.

Podemos estar cometendo uma injustiça atribuindo ao PT objetivos que nem de longe são os acalentados pelo partido? Existe a possibilidade de que esses objetivos sejam privativos de uma ala radical e minoritária do PT? Sim, mas para que isso fique claro seria do interesse do próprio PT que seus dirigentes explicassem esse ponto com maior clareza.

Enquanto o esclarecimento não chegar às massas vestidas de verde e amarelo que foram às ruas no domingo passado e já preparam novas manifestações, elas vão gritar que “nossa bandeira nunca será vermelha”. Em outras palavras, enquanto o PT não explicar como pretende obter a hegemonia e o que planeja fazer com ela caso atinja seu objetivo, o mais prudente mesmo é seguir o sábio conselho do escritor francês André Gide, premiado com o Nobel de Literatura em 1947: “Confie em quem busca a verdade, mas sempre desconfie de quem a encontrou”.

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