Crise afeta doações e cria cenário desolador para entidades beneficentes

O efeito dominó gerado pela crise econômica abalou a principal estrutura de sustentação dos espaços filantrópicos. Em todo país, entidades que dependem de donativos viram as arrecadações despencarem, ao mesmo tempo em que os gastos não param de subir, o que as obrigou a correr atrás de alternativas capazes de manter um fôlego mínimo para não desfalecerem.

Em Curitiba, a situação não é diferente. Instituições que precisam das doações para se manterem em pé falam de um cenário desolador, em que as contribuições deixaram de ser um alívio para se tornarem um desafio.

“A recusa é tanta que a gente teve que fazer um trabalho bem forte de motivação com a equipe que pede arrecadação por telefone”, conta João Henrique Castilho, responsável pelo setor de marketing da Associação Franciscana de Educação ao Cidadão Especial (Afece). As contribuições rotineiras da entidade caíram, em média, 70% desde meados do ano passado, quando a frase “não posso mais ajudar” começou a se tornar mais constante.

Segundo Castilho, o valor aproximado de R$ 25 mil que chegava aos cofres da Afece por meio de doações encolheu para, no máximo, R$ 3 mil. E o mau cenário fez com que a organização decidisse destacar duas pessoas do quadro de funcionários para se dedicarem exclusivamente à busca por donativos. Uma capta o básico: alimentos e produtos de higiene; a outra, produtos para o bazar da instituição.

Um caminho novo para sair do labirinto foi o que também buscou a Socorro aos Necessitados, mantenedora do Lar dos Idosos Recanto do Tarumã e do Centro Dia de Atenção à Pessoa Idosa. James Macedo Neto, presidente do conselho da organização, conta que, por causa da crise, eles tiveram que voltar a bater na porta de velhos contribuintes. “Todo mundo está tendo dificuldade e corta onde pode. Nós somos sempre os primeiros a sermos dispensados porque a pessoa precisa fazer uma escolha”, avalia Macedo Neto.

Ele conta que as estratégias de divulgação nas redes sociais também se avolumaram. É uma medida que tenta sensibilizar mais a sociedade. “Começamos a usar mais o Facebook, as mídias de uma maneira geral. As publicações geram réplicas e conseguem um alcance que, sozinho, a gente não consegue”, acrescenta o membro da Socorro. Segundo Macedo Neto, as doações não financeiras registraram uma queda 50% de 2014 para 2015. O espaço administra um orçamento anual de mais de R$ 5 milhões para manter os serviços de atendimento prestados a 140 idosos.

Nem dinheiro, nem agasalho

O brasileiro parece estar mesmo levando ao pé da letra as regras da economia doméstica em tempos de crise. Tanto que nem mesmo aquela peça deixada no fundo do guarda-roupa ou aquele móvel escondido em algum cômodo da casa tem saído com mais facilidade.

Precaução que fez a campanha de arrecadação de roupas de inverno da Prefeitura de Curitiba, a Doe Calor, registrar números negativos em 2016.

De acordo com a Fundação da Ação Social (FAS), em maio, junho e julho deste ano as contribuições feitas ao Disque Solidariedade diminuíram em 35% na comparação com os mesmos meses do ano. Já a arrecadação da Doe Calor foi 36% mais baixa.

Para se ter uma ideia, em julho de 2015, o Disque Solidariedade registrou 1.126 protocolos de atendimento (pedidos de recolhimento de doações). Em julho deste ano, o número foi de 645. Quanto à campanha do agasalho, 223 mil peças tinham sido arrecadadas até o fim de julho do ano passado haviam sido arrecadada

. Agora, o número de peças arrecadadas até julho está em 144 mil.

Captação faz Pequeno Príncipe “bater” a crise

  • Angieli Maros

Enquanto a recessão deixa a maioria das organizações do terceiro setor de cabelo em pé, o Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba – referência nacional em atendimento pediátrico –, respira quase aliviado em saber que a generosidade de seus clientes rende números positivos ano a ano.

Mas os bons resultados de agora não são sorte. A explicação começa lá trás, nos anos 2000, quando o hospital decidiu apostar na profissionalização da captação de recursos.

Atualmente, são 58 pessoas trabalham exclusivamente na busca por novas formas de aumentar a carteira de doações da instituição. Quinze dessas pessoas estão em São Paulo, onde o número de colaboradores é cada vez maior.

“As ONGs normalmente têm um espírito mais associado ao coração, ou seja, elas nem sempre têm espírito empresarial. No caso do Pequeno Príncipe não é assim. Aqui existe um desafio e o desafio é como manter a compaixão, a empatia e a dignidade promovendo gestão como se a gente fosse uma empresa”, explica o diretor corporativo do Complexo Pequeno Príncipe José Álvaro da Silva Carneiro.

As estratégias de captação de doações para o hospital chegam a todas as portas, das mais simples – aquelas que contribuem com R$ 5 por mês – até os jantares de gala organizados pela instituição. Neste ano, o evento levará centenas à famosa Casa Fasano, em São Paulo, para prestigiar um jantar cujas reservas custaram R$ 1.250 por pessoa.

“A gente faz esses eventos por necessidade, não por vocação. A nossa criatividade funciona por conta da necessidade”, ressalta o diretor.

De acordo com ele, dos R$ 173 milhões líquidos movimentos pela entidade em 2015, R$ 32 milhões chegaram por meio de captação de recursos, que tem como ponto mais forte os programas de renúncia fiscal.

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