O risco ambiental da expansão de áreas portuárias no Litoral

É possível levar desenvolvimento para os municípios do Litoral de forma compatível com as características naturais e culturais das comunidades locais, sem comprometer a biodiversidade e a dinâmica natural do local

Além de abrigar um dos mais importantes portos do país, o Litoral do Paraná é uma opção crescente de lazer e entretenimento para os moradores do estado. Fato comprovado nos fins de semana ensolarados e nos feriados prolongados. Mas será que essas pessoas sabem que estão adentrando uma porção do Litoral, de 80 quilômetros de extensão, que abriga um relevante patrimônio natural, além de espécies de fauna e flora características da Mata Atlântica? Isso porque a região, em conjunto com o litoral sul de São Paulo, concentra o maior remanescente contínuo de Mata Atlântica ainda bem conservado de toda a costa brasileira. Muitas espécies dependem exclusivamente desse ambiente para sobreviver.

A riqueza de biodiversidade proporcionou o desenvolvimento de pesquisas e monitoramentos com espécies no intuito de verificar seu status e buscar estratégias que garantam a conservação desse patrimônio natural. Entre elas, há mais de 15 anos o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis), espécie endêmica da região, é monitorado. Com base nesse estudo, sabe-se que a espécie utiliza como abrigo as principais ilhas da região, locais inseridos em áreas protegidas, como o Parque Nacional do Superagui, a Estação Ecológica da Ilha do Mel e a Reserva Indígena da Cotinga.

A região de Pontal do Sul pode estar comprometida no futuro, caso um projeto portuário aliado com um conjunto de indústrias ligadas ao pré-sal se viabilize na porção de Pontal em frente à Ilha do Mel.

Mas o que esses estudos demonstram é que muitos animais necessitam de áreas maiores para sobreviver. E os limites atualmente protegidos não garantem sua permanência. Fato evidenciado no censo populacional do papagaio-de-cara-roxa de 2016, quando foi verificado um grupo de 4 mil indivíduos – cerca de 60% da população – dormindo na Ilha Rasa da Cotinga e, ao longo do dia, se dirigindo para a planície litorânea entre a região do Maciel e Pontal do Sul. São áreas naturais que oferecem abrigo e itens alimentares, que muitas vezes só estão disponíveis nessa parte do Litoral.

O que as pessoas que já avistaram o belo espetáculo que é o voo dos papagaios na região talvez não saibam é que a região de Pontal do Sul pode estar comprometida no futuro, caso um projeto portuário aliado com um conjunto de indústrias ligadas ao pré-sal se viabilize na porção de Pontal em frente à Ilha do Mel. É muito claro o equívoco que essa intenção representa e a destruição dos ambientes naturais que provocará, além de prejudicar irremediavelmente o modo de vida dos moradores e visitantes.

Sabemos que é possível levar desenvolvimento para os municípios do Litoral de forma compatível com as características naturais e culturais das comunidades locais, sem comprometer a biodiversidade e a dinâmica natural do local. Adicionalmente, pode-se dar a espaços destinados a fins industriais e portuários, como Paranaguá, um aporte adicional de infraestrutura com medidas para ampliar sua condição de transporte de cargas e, ao mesmo tempo, gerar melhores condições de vida para as populações que vivem nessas áreas.

Para isso, o interesse público genuíno de moradores, gestores e empresários deve contrapor os interesses econômicos isolados que impliquem em riscos para a população e para o meio ambiente. Há de se buscar uma união de propósitos para um projeto local de desenvolvimento harmônico e equilibrado, respeitando as peculiaridades de cada porção de nossa região costeira, e que vise o bem comum do Litoral do Paraná.

Elenise Sipinski, mestre em Conservação da Natureza e integrante do Observatório Conservação Costeiro do Litoral do Paraná (OC2), é coordenadora do Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa, da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).
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